Ambrosino Tilésio
Bobina Enguiçada
Semana passada acordei com uma coisa estranha no bolso do meu pijama. Até onde sei, sou o único cara do planeta que ainda compra pijamas com bolso. Eles não me pareciam úteis, mas simpatizo com quaisquer tipos de bolsos. Naquela manhã, especificamente, ele mostrou trabalho.
Senti um peso estranho nele. Parecia vivo. Temi ser uma barata e preparei-me para o soco no peito, que doeria mas seria por uma causa mais nobre. Cerrei o punho direito, pensei no nocaute que Maguila levou do Holyfield e quando ia desferir o mesmo cruzado fatal, ele surgiu:
-NÃO!
Filho da mãe. Era um duende com um boné do banco nacional, aqueles que o grande Senna usava.
-Preserve-me! Sou um duende da sorte!
E eu vinha muito satisfeito com a minha vida pós-traumática. Sem remédios, sem cerveja, sem sexo, sem brigas, sem emoções. Uma vida sem sal, mas ainda assim, uma vida. Mas logo um duende da sorte? E que sorte de merda era aquela, já que ele usava o boné dum banco falido?
Estendi a mão amistosamente, esperando que ele saísse do meu bolso. Foi o que aconteceu. Da palma da minha mão, percebia o olhar curioso do pequenino. Abri a boca pra fazer uma pergunta e ele rapidamente pulou na minha garganta. Engasguei, tossi e ele voou na segunda rajada de ar. O boné ficou no gogó.
O lazarento me pedia o boné de volta, mas não tinha como pegá-lo. Era do tamanho dum pedaço triturado de coco que fica vagando pela boca após comer um prestígio. Impossível. Voltei a tentar conversar com o duende
-Escuta aqui, me explica o que você quer. Você quase me mata, eu quase te mato. Tem alguma coisa errada, e eu nem tô considerando o fato de você ter aparecido no meu bolso e estar usando um boné de banco. Que porréssa?
Ele pôs as mãos na cintura e respondeu com autoridade:
-Vim ajudá-lo. Eu ajudo as pessoas, você sabia? Sou um duende e trago sorte. Sei que você anda sem dinheiro, sem sexo, sem roupa, sem nada.
-Sem remédios…
-Sem nada! Você é tá o puro creme da derrota. Eu vim te trazer de volta à vida, rapaz. Pare de sofrer! Me dê uma moeda e verás a transformação.
-Caralho, que papo de igreja evangélica. Vá à merda, agora é que não confio mesmo em você.
-É só uma moedinha!
-Não!
-Por isso você tá fudido. Mão de vaca pra cacete, fica sem ninguém e se fode.
É, ele tinha um pouco de razão. Mas era só um pouco. Eu era mão de vaca por necessidade, os remédios eram caros. Mas eu parei com eles e continuei sovina. Foi igual ao costume criado depois do apagão: Tirava tudo da tomada depois de usar. Pensei duas vezes, três, e na quarta me dei conta da insignificância duma moedinha. Puxei 1 $ e entreguei pro duende. Ele riu e saiu correndo pelo quarto. Com ele a moeda parecia um escudo medieval, e ele a ostentava duma maneira que parecesse mesmo um escudo.
-… Ei!
Nada do duende. Ele entrou embaixo do armário. De vez em quando eu ouvia algum ruído de passadas curtas no piso. Poderia ser qualquer coisa, menos o desgraçado. Desencanei e fui pra cozinha tomar café.
Enquanto preparava o leite fiquei pensando na loucura que foi ter visto tudo aquilo. Conversado com um duende? Mas que merda. Um amigo, quando tinha 13 anos, escreveu um livro sobre duendes. Aproveitou o boom dos duendes e escreveu um livro. Foda. Eu tinha quase 20 e nunca tinha escrito nem uma carta pra alguém. Me senti um lixo.
Peguei os pães e os queijos e fui me sentar pra comer. Sentei e senti algo esquisitíssimo no reto. Algo vivo. Algo estranho. Algo estranhamente vivo passeava pelo meu rabo, e eu não tava com a menor vontade de cagar. Como estava comendo, não quis averiguar a estranheza e fiquei ali, curtindo a movimentação toda.
Na segunda mordida, percebi que não estava com o pão na mão. Nem havia queijo em lugar nenhum. Eu continuava dormindo, um pouco desacordado. Mordia meu travesseiro, apalpava o lençol. Tudo não passou de um sonho.
Olhei ao redor e nada vi. Dia lindo, um sol poético tomava conta do meu despertar. Ah, o alegre despertar. Por sorte eu não havia visto duende algum. A abstinência do remédio vinha me fazendo mal, pensei. Nisso olhei pra trás, vi o boné do Nacional na minha banda esquerda e um novo remelexo anal.
Que vida. Não era um sonho. Mas agora ele estava no pior lugar possível! E logo com uma moeda de 1 real! Cretino.
Liguei correndo pra minha tia. Ela rogou praga, eu sabia. Começou a me ameaçar quando fiz piadinhas sobre a igreja. Agora eu passei a acreditar em tudo e voltei a ter prazer sexual, automóvel do ano, uma gorda conta bancária e o amor divino. Mas algo me diz que se eu expelir o anão da moeda, tudo vai abaixo…
Depoimento de Everaldo Batério para a a igreja da pechincha