Ambrosino Tilésio
Pesque-e-Pague
Resolvi viajar com a minha palestra revolucionária intitulada Seja Boêmio Sendo Bacana, um sucesso de público e vendas -na minha cabeça.
Tinha uma assistente, a Janaína, que além de ser bem gostosa e safada sempre conseguia me lembrar algumas coisas que eu esquecia, como a ordem dos 5 Caminhos do Manjar. Nunca lembrava a merda dos 5 Caminhos do Manjar.
Recebi um contato dum mosteiro. Pra lá que estava viajando. Chegamos rápido lá, e o lugar era lindo, zen, pacífico, silencioso. Pracinhas e passarinhos em todos os lugares da fortalezazinha que visitara. Nem de longe lembrava a época da cadeia a qual fui submetido e tanto me traumatizava. Me sentia bem, em paz, iluminado.
Fui recebido por um frei que era caolho e tinha um cacoete esquisito onde sempre ficava com a língua entre os dentes, dando um sorrisinho babaca. Eu achei mais estranho que engraçado, e esqueci de rir. Me apresentei e ele foi me falando dos aposentos e dos moradores do lugar.
-Aos fundos temos os quaaaaaartos, o resposável por eles é o frei Quartzo. No final deste corredoooor é o cemitério. Quando você morrer, é com o frei Dimão que deve falar. Sacou o trocadiiiiiilho? Freio de mão, frei Dimão, morte. Mas o nome dele é Aguilar. Aquiiiii deste lado nós cozinhamos… Aquele ali é o frei Fritão, porque é ele quem frita e nós o apelidamos assim. Aquele ao seu lado, colocando a colher entre as pernas é o frei Colher, porque ele é tarado por colheres. Tem também o frei Cardoso, que é chamado por aquiiiiiiiiii de Gonorréia. Ele tem esse apeliiiiiiiido porque é careca e torce pro Palmeiras. Se ele não está aquiiiiiiiii nos bancos, provavelmente está se masturbando em algum dos banheiros.
Interrompi
-Masturbando?
-Eu disse masturbando? Ah, me enganeeeeei. Ele está tentando se masturbar.
-Entendo.
Tudo ficou mais claro.
Continuamos andando pela pracinha central até subir uma ruazinha e chegar num anfiteatro. Era bem estranho aquele mosteiro, porque eles olhavam muito pra Janaína. Não era prum frei ser tarado, imaginava. Uns se mordiam enquanto viam o decote dela. Não me enciumava, mas era incomum pra caralho.
Chegamos ao anfiteatro. Enquanto instalava o equipamento todo, pedi pra Janaína me dar uma chupadinha. Um relax sempre cai bem a qualquer momento. Quando ela terminou e se levantou, os lugares estavam praticamente lotados. Todos os freis tinham o tal problema com a língua, e todos tinham a mesma cara de mongo.
Comecei a palestra pontualmente: 16h. Numerólogo que sou, gosto do dezesseis.
Minha assistente vadia ficou encarregada de dar o play no dvd assim que eu começasse a falar dos 5 Caminhos do Manjar. Eu tinha um videozinho institucional que eu montei com o meu sobrinho a troco de um X-Tudo no Caceta Lanches, um puta lanche bom pra caralho, apesar da pouca higiene do lugar. Não sei se ele está bem hoje, mas no dia estava e me ajudou a montar a bagaça.
Chegou o momento do vídeo. Fiz um sinal pra Janaína e ela, sorrindo com aqueles poucos dentes que lhe restavam, apertou o botão do negócio e a projeção começou. Demorou um pouco pra iniciar, o que me deixou gelado. Os freis faziam um barulho, ruminavam, aquilo parecia um motor de caminhão prestes a quebrar. Ou não.
Quando o vídeo começou, uma surpresa. O vídeo era Babi e Seus 40 Negões, um pornô soft que eu roteirizei com minha tia pra levantar uma grana pra pagar minha fiança quando estive encarcerado. Fodeu, uma puta putaria rolando no telão e eu perdi a reação.
O tal do frei Colher se levantou e deu um grito. Falou que tava amava muito tudo isso, imitando a propaganda da zica lá, e imitou uma bailarina juvenil. Os freis todos se levantavam, começaram a dançar uns com os outros, se agarrar coisa e tal. Virou um pandemônio.
A Janaína, mulher forte, ficou de pé na mesa e pediu silêncio e ordem aos berros. Os freis pararam, olharam estaticamente pra ela e quando ela ia falar alguma coisa, eis que surge a voz do telão:
-Tenho fome de paaaaaauuuuuu.
Era a linha mais bem elaborada de todo o filme.
Os freis voltaram a gritar, mas agora prestando atenção no vídeo. Alguns pensavam que a Janaína tinha dito aquilo, o que até poderia ser considerado, já que ela era uma puta mesmo. Um macaco entrou pela janela lateral, arrebentando o vidro e caindo de cara no chão. O frei Gonorréia gritou goooooool do palmeeeeeiras, ficou feliz e começou a cagar no chão. Todos enlouquecidos com a linguinha entre os dentes.
Neste dia vi que não dava mais pra mim não. Voltei a beber.
fevereiro 21, 2009 at 10:33 pm
esse texto tá ótimo.
ah, eu queria saber escrever textos grandes assim. os meus são tão breves, eu sou.
janeiro 2, 2011 at 11:16 am
[...] Cacilda Becker fevereiro, 2009 1 comentário 3 [...]